O que é o Jornal da Macroeconomia
- Jornal da Macroeconomia
- Natal, RN, Brazil
- O Jornal da Macroeconomia é uma reunião de debates que tem como temática a conjuntura macroeconômica. Idealizado pelo professor do Departamento de Economia da UFRN, Dr. André Lourenço, para servir como instrumento de incentivo ao debate. Teve sua primeira edição realizada no dia 09 de outubro de 2008. Sua formatação inclui a pesquisa e seleção de notícias consideradas relevantes, envolvendo a temática do debate, que são compiladas e apresentadas aos participantes na forma de jornal, seguindo então os debates, tendo como foco as notícias previamente selecionadas. Esse espaço foi criado para disponibilizar as edições anteriores aos interessados, divulgar o Jornal da Macroeconomia e criar um meio eletrônico de realizar esses debates, visando contribuir para o Curso de Economia da UFRN e de outras academias.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
12ª Edição
Ministro destaca redução de gastos com pessoal e pagamento de juros
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, reafirmou nesta terça-feira que os empréstimos do Tesouro ao BNDES foram importantes para evitar a queda do PIB no Brasil durante a crise financeira internacional de 2008 e 2009. Afirmou que o reforço no caixa do banco não implicou em aumento de custo para o Tesouro Nacional. “O custo é menor do que os ganhos com os empréstimos e os gastos com subsídios voltam em forma de aumento da arrecadação de impostos e dividendos do banco”.
Para Mantega, sem os financiamentos do BNDES ao setor produtivo e as demais medidas anticíclicas adotadas para o enfrentamento da crise o país teria registrado queda de 2,5% a 3% do PIB. “Quando cai o PIB, a arrecadação cai e o emprego cai”, citou. “Nós evitamos o prejuízo com pagamento de seguro-desemprego, por exemplo, e não estaríamos crescendo no patamar de 6,5% em 2010”, argumentou durante entrevista para comentar o relatório “Economia Brasileira em Perspectiva”.
Segundo o ministro, entre 2003 e 2004, a participação do BNDES no total de financiamentos do Sistema Financeiro Nacional era de 24% e atualmente está em 20,2%, “Significa que o crédito livre (do setor privado) cresceu mais que o crédito do setor público”, disse Mantega.
Ele lembrou ainda que o BNDES não empresta apenas a grandes empresas. “É natural que as grandes empresas tomem empréstimos maiores. Agora, somente em 2009 as pequenas e médias empresas obtiveram R$ 30 bilhões em financiamentos do BNDES, o que é incomum”, enfatizou o titular da Fazenda. “É difícil uma empresa saudável, com um projeto sólido e bem fundamentado não consiga crédito no BNDES”, disse, citando a aprovação de 400 mil projetos no ano passado.
PIB - O ministro confirmou que o PIB em 2010 crescerá 6,5% pelas projeções da Fazenda divulgadas no relatório e destacou a retomada do crescimento no terceiro trimestre. Também enfatizou o aumento do PIB per capita: “Esse aumento se deve à aceleração do crescimento do PIB e à diminuição do crescimento populacional”.
Mantega destacou outros indicadores importantes da retomada do crescimento, como o resultado da indústria automobilística, com venda de mais de 300 mil unidades em julho e a evolução do mercado consumidor, medido pelo aumento expressivo da mobilidade social. Conforme o ministro cada vez mais a população brasileira melhora sua condição de vida, passando das classes D e E para B e C.
O ministro ressaltou ainda o aumento da geração de empregos no país. Segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o saldo mensal de junho de 2010 registrou a criação de 212.952 empregos com carteira assinada. É o segundo melhor resultado para o mês de junho, perdendo apenas para junho de 2008. “Estamos diante de um maior crescimento e maior geração de emprego, que é uma correlação direta”, comentou.
Sobre as projeções de inflação, Mantega também confirmou 5,3% para o IPCA e disse que o índice está abaixo das estimativas do mercado. “De fato não havia uma inflação de demanda, como eu falei desde o início do ano, mas sim um choque de oferta. Os analistas não esperavam retração dos preços agrícolas”.
Em relação ao comércio exterior, após um período em que as importações cresceram mais que as exportações, as curvas agora estão convergindo. “As importações, que chegaram a crescer 40%, estão agora crescendo entre 34% e 35%, com as exportações acelerando”, afirmou.
Ao comentar os números da publicação divulgada nesta terça-feira, Guido Mantega ressaltou que o país hoje caminha na direção da poupança pública (resultado de toda a arrecadação e gastos do Governo Central, sem as estatais, menos o investimento). “Estamos começando a gerar poupança pública, o que é salutar e deve continuar”.
Sobre a política fiscal, destacou a redução dos gastos com pessoal em relação ao PIB. “Alguns diziam que haveria gasto explosivo, o que não aconteceu”, lembrou. Conforme o ministro o aumento em determinado momento foi devido ao reajuste salarial de algumas categorias. “A tendência é que os gastos com pessoal se estabilizem entre 4,5% a 4,7% do PIB, abaixo do que já foi no passado”.
O ministro concluiu que “a economia brasileira está bem, crescendo de forma saudável, gerando emprego e com equilíbrio fiscal”. Ele negou que a divulgação do panorama econômico cunho eleitoral. “Agora tudo que fazemos pode ser interpretado com conotação eleitoral. Mas conseguimos isolar política de economia. Não há contaminação”, disse. “Não vou deixar de divulgar os dados porque é ano eleitoral. A economia não desaparece em ano eleitoral”, declarou.
Fonte: Assessoria de Comunicação Social – GMF / http://www.fazenda.gov.br/audio/2010/agosto/a100810.asp em 26/08/10 - acesso em 26 de agosto de 2010
Indústria quer barreira contra importados
São Paulo (AE) - A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) vai pleitear junto ao governo o aumento da alíquota do Imposto de Importação de 14% para 35% dos equipamentos comprados no exterior e que tenham similares nacionais. No mês passado, as importações de máquinas atingiram a maior marca mensal em 70 anos: US$ 2,253 bilhões, com crescimento de 52,6% ante julho de 2009.
“Vamos fazer esse pleito ao Ministério da Fazenda nas próximas semanas”, afirma o presidente da Abimaq, Luiz Aubert Neto. Ele frisa que a indústria brasileira de máquinas está perdendo competitividade em relação aos produtos estrangeiros. “A falta de isonomia em relação às máquinas importadas é brutal”, diz ele, se referindo à taxa de câmbio, aos tributos e às vantagens de financiamento oferecidas pelos países que vendem máquinas para o Brasil.
Aubert Neto diz que a tributação de 35% está de acordo com o teto das alíquotas de importação, segundo as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). A entidade defende o aumento do imposto em caráter emergencial para estancar o processo de desindustrialização pelo qual passa a indústria de máquinas. Para os equipamentos sem similares nacionais, o imposto de importação é hoje de 2% e essa alíquota seria mantida.
De janeiro a julho, o saldo da balança comercial do setor de máquinas registrou um déficit de US$ 8,072 bilhões e previsão é encerrar o ano com um saldo negativo de US$ 13 bilhões, o maior déficit já registrado.
Exportadora
Aubert Neto destaca o avanço dos países asiáticos no mercado brasileiro de máquinas. “A China vai passar a Alemanha que hoje é a segunda maior fornecedora de máquinas no próximo mês”, afirmou o executivo. No primeiro semestre, a China foi a terceira maior exportadora de máquinas para o Brasil, com vendas de US$ 1,594 bilhão e respondeu por 11,9% das importações.
“Em 2005 a China não aparecia entre dez maiores fornecedores.” Movimento semelhante ocorre com a Coreia do Sul que vendeu no primeiro semestre US$ 494,4 milhões e responde por 3,8% das importações, em 2004 detinha 1,1%. “As importações da Índia não eram nada cinco anos atrás.” O presidente da Abimaq diz que a Coreia se destaca pois vende com preço, qualidade e prazo. Isso faz parte da política industrial dos países que estão avançado no mercado brasileiro.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
11ª Edição
UFRN – Ano 03 – 11ª Edição – Editado por Andréia Simone, Elivânia Melo, Felipe Luiz, Fernando Nascimento e Maikon Anderson – Maio/2010 – Natal/RN
UM DINHEIRO MUITO DISTANTE
PAUL KRUGMAN
Então, seria a Grécia o próximo Lehman Brothers? Não. Ela não é grande ou interconectada o suficiente para causar o congelamento dos mercados como em 2008. O que quer seja a causa do breve desmaio de mil pontos no Dow Jones não foram os atuais eventos da Europa.
Você também não deve levar a sério analistas afirmando que estamos vendo o começo de uma corrida contra todas as dívidas do governo. Os custos com empréstimos nos Estados Unidos na verdade afundaram, na quinta-feira passada, aos menores níveis
Essas são as boas notícias. A má notícia é que os problemas da Grécia são mais profundos do que os líderes europeus estão dispostos a reconhecer, mesmo agora – e os problemas são compartilhados, em grau menor, por outros países da região. Muitos observadores esperam que a tragédia grega acabe
De certo modo, isto é a crônica de uma crise anunciada. Lembro de ter debochado, quando o Tratado de Maastricht foi assinado, colocando a Europa no caminho para o euro, que eles haviam escolhido a cidade holandesa errada para a cerimônia. Ela deveria ter tomado lugar em Arnhem, local da infame Ponte Longe Demais, em que, na II Guerra Mundial, um plano de batalha excessivamente ambicioso dos aliados acabou em desastre.
O problema, tão óbvio em consideração ao que é agora, o que falta à Europa é alguns dos atributos chaves para o sucesso em uma área de moeda comum. Além disso, falta um governo centralizado.
Considere a comparação freqüente entre a Grécia e o Estado da Califórnia. Ambos estão em profundos problemas fiscais, ambos têm um histórico de irresponsabilidade fiscal. E o impasse político na Califórnia é, na verdade, pior – afinal, apesar das demonstrações, o parlamento grego aprovou medidas de severa austeridade.
Mas os infortúnios fiscais da Califórnia não importam tanto, mesmo a seus próprios residentes, quanto os da Grécia. Por quê? Porque muito do dinheiro gasto na Califórnia vem de Washington, não de Sacramento. O financiamento do Estado pode ser cortado, mas reembolsos do Medicare, cheques da Previdência Social e pagamentos a fornecedores militares continuarão entrando. O que isto quer dizer, entre outras coisas, é que os problemas fiscais não impedirão o Estado de compartilhar de uma mais vasta recuperação econômica dos EUA. Os cortes orçamentários na Grécia, por outro lado, exercerão forte efeito depressor em uma já deprimida economia.
Então seria uma reestruturação de dívida – termo polido para uma inadimplência parcial – a resposta? Não ajudaria tanto quanto as pessoas imaginam, pois pagamentos de juro são apenas parte do déficit orçamentário da Grécia. Mesmo se parasse completamente de pagar sua dívida, o governo grego não liberaria dinheiro suficiente para evitar ferozes cortes no orçamento.
A única coisa que poderia realmente reduzir a dor dos gregos seria uma recuperação econômica, que geraria maior receita, reduzindo a necessidade de corte nos gastos, e criaria empregos. Se a Grécia tivesse moeda própria, poderia tentar engendrar tal recuperação por desvalorizar esta moeda, aumentando sua competitividade nas exportações. Mas a Grécia usa o euro.
Então, como isto acaba? Pela lógica, vejo três maneiras para a Grécia continuar na zona do euro. Primeiro, os trabalhadores poderiam alcançar a redenção pelo sofrimento, aceitando grandes cortes salariais que fariam a Grécia competitiva o suficiente para criar empregos. Segundo, o Banco Central Europeu poderia engajar-se em uma política de comprar muitos títulos de dívidas do governo e aceitar – na verdade, dando as boas-vindas – a inflação resultante. Isso faria o ajuste na Grécia e em outras nações da zona do euro muito mais fácil. Ou, terceiro, Berlim poderia tornar-se para Atenas o que Washington é para Sacramento – isto é, governos europeus fiscalmente fortes poderiam oferecer a seus vizinhos mais fracos, suficiente auxílio para fazer da crise algo suportável.
O problema, claro, é que nenhuma dessas alternativas parece politicamente plausível. O que sobra parece impensável: a Grécia deixar o euro. Quando você descarta todo o resto, é o que fica.
Caso isso aconteça, se desenrolará mais ou menos como a Argentina em 2001, que tinha um supostamente permanente e inquebrável peso fixo em relação ao dólar. Acabar com essa relação era considerado impensável pelas mesmas razões que deixar o euro parece impossível: mesmo sugerir a possibilidade significaria correr risco de incapacitantes fugas de capital nos bancos. Mas isso aconteceu mesmo assim, e o governo argentino impôs restrições emergenciais aos saques. Isso deixou a porta aberta para a desvalorização, e a Argentina eventualmente acabou passando por aquela porta
Se algo assim acontecer na Grécia, uma onda de choque se propagará pela Europa, possivelmente engatilhando crises em outros países. A não ser que os líderes europeus possam e queiram agir de forma mais ousada do que já vimos até agora, é para onde a situação se encaminha.
Tradução: Fernanda Grabauska
O Brasil tenta controlar o aumento do seu crescimento econômico
Le Monde
(25/05/2010) Allegro ma non troppo: é esse o ritmo que o governo brasileiro quer imprimir ao crescimento da economia nacional. Nos últimos meses, esta vem progredindo rápido demais, e corre o risco de sofrer um superaquecimento como o da economia chinesa.
Atingido tardiamente pela crise mundial, o Brasil foi um dos primeiros países a se livrarem dela. E como! Depois de ter sofrido uma ligeira retração do produto interno bruto (PIB) de 0,2% em 2009, sua economia volta a crescer, e mais rapidamente do que antes da crise.
Segundo uma projeção do Banco Central, o crescimento deu um salto de 9,84% no decorrer do primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, e de 2,38% em relação ao período outubro-dezembro de
Os sinais de superaquecimento são visíveis. Principal motor do crescimento, o consumo interno está a todo vapor. Ele é mantido pela febre consumidora dos cerca de 25 milhões de brasileiros que, em dez anos, passaram a fazer parte da classe média e descobriram os charmes do crédito. No primeiro trimestre, o comércio cresceu 13%.
Em três meses, o Brasil criou quase um milhão de empregos. E deverá criar 2,5 milhões deles em 2010, em um mercado que permanece tenso devido à escassez de mão de obra qualificada em certos setores em plena expansão, como a indústria petroleira. De janeiro a março, mais de 11 mil vistos de trabalho foram concedidos a estrangeiros, um aumento de 16%.
As importações destinadas a satisfazer a demanda interna em bens de produção e em produtos industriais deverão, pela primeira vez desde 2000, ultrapassar as exportações, constituídas em sua maioria por matéria-prima agrícola e minerária, destinada especialmente à China, principal cliente do Brasil.
Para evitar o agravamento do déficit da balança de pagamentos, o governo acaba de adotar uma série de medidas de ajuda aos exportadores, ainda mais castigados pela valorização excessiva do real, a moeda nacional.
Mas o que mais preocupa os dirigentes é o despertar da inflação, esse flagelo que tanto devastou a economia do Brasil no passado. A alta dos preços atingiu 5,3% em um ano, e deverá ser de 5,5% em 2010, ou seja, um ponto acima da meta oficial (4,5%). Para o presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, é absolutamente necessário do ponto de vista político conter a inflação, a pior inimiga dos pobres.
E isso causou a decisão tomada pelo Banco Central, no fim de abril, de aumentar em 0,75 pontos os juros básicos, para 9,5%. Foi a primeira vez em quase dois anos, e deverá haver outros aumentos futuramente, de forma suave para não “resfriar” demais a economia.
Essa medida ocasionalmente indispensável não compromete, a longo prazo, a queda progressiva dos juros que, em termos reais, passaram de 20% em 2003 para 5% hoje. Esses juros continuam sendo muito atraentes para os especuladores estrangeiros, seduzidos pelo Brasil desde que as agências de classificação de risco o consideraram um “país seguro” em 2008.
Em 2010, os investimentos diretos estrangeiros deverão atingir a cifra recorde de US$ 45 bilhões. Na Bolsa de São Paulo, eles são maiores que os investimentos das instituições e pessoas físicas.
Entretanto, se o Brasil se aproxima do superaquecimento, é porque ele não investe o suficiente em seus meios de produção. Ele também poupa muito pouco: 19% de seu PIB (contra 40% na China). Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), calcula em 25% as taxas de investimento e de poupança desejáveis para que o Brasil possa enfrentar um crescimento anual de 10%.
Esse dinheiro deverá financiar o desenvolvimento da infraestrutura, especialmente no setor rodoviário e portuário, que está saturado, e a melhora do ensino público e profissionalizante, cuja deficiência limita os ganhos de produtividade. Sem isso o país corre o risco de ter uma falta ainda maior de máquinas, de espaço e de mão de obra qualificada.
Enquanto isso não acontece, o governo, para frear a demanda, aboliu os incentivos fiscais instaurados durante a recessão para estimular o consumo. Ele anunciou cortes de US$ 17 bilhões (R$ 31 bilhões) nos gastos públicos. Mas, nesse campo da austeridade, sua margem de manobra orçamentária é reduzida, neste ano de eleição presidencial.
Há alguns dias, em Madri, o presidente Lula comemorava “o momento mágico” vivido pela economia brasileira. Para que essa magia dure, não é nem desejável nem razoável que esta cresça além de 6% este ano.
“Não queremos voar além daquilo que planejamos”, resume o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, brinca: “Mas controlar o aquecimento é uma tarefa boa”. Uma tarefa pela qual é invejado por muitos de seus colegas em todo o mundo.
Tradução: Lana Lim
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
7ª Edição
É o câmbio, Sr. Presidente!
O Brasil só terá novamente altas taxas de crescimento econômico quando voltar a administrar taxas de câmbio, afirma o economista Luiz Carlos Bresser-Pereiera
(17/08/09) – Folha de S. Paulo – O "VALOR Econômico" do último dia 11 informava em sua manchete de primeira página que a indústria automobilística vive sua "3ª onda de investimentos", enquanto no mesmo dia a Folha anunciava que "queda na exportação segura retomada das montadoras" e completava: a retração acumulada das exportações do setor neste ano é de 12,9%.
As duas notícias são contraditórias. Por que as empresas planejariam grandes investimentos se suas exportações estão em queda? E se uma das causas dessa queda for a apreciação do câmbio que está ocorrendo? Para que a expansão projetada seja voltada principalmente para atender o mercado interno, poderiam me responder. Mas, ainda que a indústria automobilística seja um dos poucos setores protegidos, a apreciação cambial abre o mercado interno para as importações.
Só vejo uma explicação para a contradição. Os planos de investimento provavelmente existem, mas foram formulados no quadro de outra taxa de câmbio – daquela taxa que se definiu após o crash de outubro de 2008. Planos de investimento tomam tempo para serem formulados e mais ainda para serem implementados. Não me surpreenderá, portanto, que uma boa parte desses projetos seja abandonada ou adiada em vista da nova taxa de câmbio.
O presidente Lula, porém, não parece disposto a enfrentar o problema. Nesta mesma Folha, Kennedy Alencar informa que, "apesar de preocupado com o efeito negativo da valorização do real sobre as exportações, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva descarta intervenção no sistema de câmbio flutuante". Como explicar esse fato? Só vejo duas respostas: primeiro, o presidente Lula está satisfeito com o desempenho da economia brasileira e não se dispõe a tomar medidas mais fortes no setor; segundo, o presidente ainda não se deu conta da gravidade do problema cambial brasileiro; supõe que a sobreapreciação que está novamente se manifestando seja conjuntural – relacionada com a taxa de juros elevada – quando ela
é estrutural.
Acho que o presidente se satisfaz com pouco, mas compreendo sua satisfação. Ela reflete o contentamento dos brasileiros, que, depois de 14 anos de alta inflação e baixo crescimento, entenderam que baixa inflação e um crescimento um pouco melhor sejam o melhor que podemos esperar. "Se meus eleitores estão satisfeitos, por que vou eu intervir no mercado?", deve pensar. Respeito o gênio político do presidente, mas o fato real é que essa taxa de câmbio é incompatível com o desenvolvimento econômico brasileiro. Já era antes da crise,
mas era então provisoriamente compensada pelo aumento do mercado interno causado por suas medidas distributivas (Bolsa Família e elevação do salário mínimo).
Não existe, entretanto, mais espaço nessa área. E o câmbio está novamente seguindo sua tendência estrutural à sobreapreciação. Essa tendência à sobreapreciação tem duas causas fundamentais: a doença holandesa moderada, mas real, existente no Brasil e a atração que os capitais externos têm pelas taxas de lucro e de juros mais elevadas existentes no país. Por isso não é possível deixar a taxa de câmbio por conta do mercado. Este não a torna apenas volátil, como todos os economistas reconhecem, mas essa volatilidade tem uma tendência para a sobreapreciação que resulta, no curto prazo, em diminuição das oportunidades de investimento e, no médio prazo, em crise de balanço de pagamentos. O Brasil só alcançou altas taxas de crescimento enquanto administrava sua taxa de câmbio. Só voltará a alcançá-las quando voltar a fazê-lo.
Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou
Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise
(30/08/2009) – O Estado de S. Paulo – O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. "O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instalar confiança", diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), "o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos".
O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estadão ouviu grandes economistas estrangeiros e brasileiros, entre eles Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.
Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro - o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. "Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil", acrescenta.
Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado - câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. "Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá, não tiveram crise bancária", diz O’Neill.
A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas "por coincidência", já que foram decididos antes da crise. "O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes."
Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. "Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido", comenta Rogoff.
De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. "À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos", diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.
A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.
China responderá por 70% do PIB mundial em 2009
(28/08/2009) – Valor Online – Ano passado ficou marcado na história como o ano da crise do sistema financeiro. Agora, em 2009, qual será o principal marco do ano? Para o presidente da empresa de pesquisas e serviços financeiros GaveKal, Louis-Vincent Gave, 2009 será lembrado como o ano em que a China tomou o lugar dos Estados Unidos como líder na recuperação mundial após uma crise.
"Pela primeira vez desde a 2ª Guerra Mundial, os EUA não estão liderando a retomada", disse Gave em apresentação no 4º Congresso Internacional de Mercados Financeiros e de Capitais, organizado pela BM&F Bovespa.
Na avaliação de Gave, a economia chinesa será responsável por 60% a 70% do crescimento mundial em 2009. "A China vai salvar o capitalismo", disse Gave citando uma piada, que segundo ele, é bastante conhecida em Hong Kong.
Gave também contradisse o senso comum de que a força da economia chinesa nos últimos 30 anos é reflexo de suas exportações. "O comércio externo é apenas a cereja do bolo. O fundamental é o crescimento do consumo doméstico e o investimento em capital fixo."
Segundo o especialista, os chineses foram muito bem sucedidos em equalizar ganho de produtividade com sua enorme base populacional. De acordo com Gave, nas últimas décadas, o país foi habilidoso em tirar o trabalhador do campo, onde ele produzia U$ 300 por ano, e levá-lo para dentro de uma fábrica, onde sua produção subiu para US$ 3 mil por ano. "Isso resulta em maior consumo e, estando na cidade, o trabalhador tem maior acesso ao crédito", ressaltou Gave.
De acordo com Gave tal processo de urbanização, ganho de produtividade e investimento em capital humano é algo que já aconteceu. Agora, o que dará sustentação a mais algumas décadas de crescimento chinês é uma nova revolução. "Uma revolução financeira", diz Gave.
O pesquisador observa que o país terá que aumentar a produtividade do seu capital, ou seja, modernizar e dinamizar seu sistema financeiro. O interessante, conforme Gave, é que o governo chinês já dá alguns passos nessa direção, como permitir que os exportadores deixem os dólares fora do país e a realização de acordos de swap com outros bancos centrais.
O ponto crucial, disse Gave, é a mudança do regime cambial. Se o governo chinês quiser realmente ter ganhos na produtividade de seu capital, terá que dar maior flutuação para o yuan.